Patético Poeta Palhaço
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   UM BLOG FEIO

maio 31, 2004


Carta Final a uma Amiga


 


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Carta final a uma amiga depois de uma tarde vermelha de sangue, incluindo a ressaca que tardava.


 


Maldita terra que mal fica só me fazeres chorar, maldito jardim que com tanta pedra me lapidas, maldita visão de quem morria de dor, maldito anseio por um abraço.


Ainda assim tinha de ir.  Fui e fantasma fui. Afinal, o espectro que já apenas sou aos olhos de quem não me vê.


 


 


Amiga minha


 


Ouviste-me ontem e em dias antes. E ouviste-me, deveras.  Não me julgaste, não me orientaste, não me lamentaste, não me repreendeste, não "nada" excepto, compreenderes o que ouviste.  Agradeço-te.  Muito !


Não tenho querido "saber" mas, no meu intímo, sei !  E tens razão.   O "agora" de que necessito, o "agora" que há meses anseio, não vai acontecer.  E há que despir esta expectativa, rasgar esta esperança.


Que não deixarei renascer.  Nem em anos que passem.  Não vou querer na distância do tempo as palavras porque desespero agora, da mulher por quem choro agora, de tudo o que "agora" era o tempo.  Não vou querer, não torno a querer.


Dirão:  finalmente decidiste.   Não decidi nada.  O que decidi não foi isto.  O que decidi não interessa.  Nunca interessou.  Morre muito assim, algo se encerra, porque nada decidi, apenas desisto.  A coisa mais "não eu" em mim, desistir.


Como te disse, uma das coisas sobre a qual formei o meu caracter foi que desistir de lutar por um amor é o mesmo que faltar ao respeito a esse mesmo amor.   Continuo a sentir isso mas vou parar, vou desistir.  Não terei mais o direito a proclamá-lo mas, continuarei a senti-lo.


Saturei de lugares comuns acerca do amor.  Saturei de concepções acerca dele, que mudam e oscilam ao sabor de conveniências.  Saturei de amores impossíveis quando a única alternativa que me dão é, essa sim, absolutamente utópica.  Saturei de lindas verdades acerca do amor muito a jeito para compôr lindos poemas.  E estou saturado de me maltratar na esperança infantil de que me surja, uma luz, um anjo, a doçura...


E tu já viste, que a calma bucólica da minha superfície estala com facilidade à força abrutalhada e estúpida da tempestade que vive dentro de mim.   Cada vez mais difícil de disfarçar.


Sinto que falarei menos de amor, aqui ou onde quer que seja, depois de tudo isto.  E lamento-o.  É uma alegria que se extingue em mim.


Ontem, foi a gota de água, ou de sangue, não sei.  E após falarmos, se assim quiseres entender, abdiquei perante aquilo que já sobejamente sabia sem o querer saber e todas estas dores são disso testemunhas.


E agradeço-te estares ali, naquele instante.


 



Publicado por pateticopoetapalhaco em 05:38 PM | Comentar (0)